Coach do Coach

Os melhores profissionais e as melhores equipas têm um denominador comum: serem peritos nas competências intra e inter que perfazem as relações interpessoais entre todos os objectivos, as ferramentas e os meios. (Rui Lança)

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O que falta para o treinador avaliar o seu comportamento

A segunda parte do artigo. Para a semana terá a terceira. Aqui vai!

O último artigo no Maisfutebol foi sobre o erro na formação dos treinadores. E com isto a ideia não seria descobrir a ‘pólvora depois da guerra’, mas sim acrescentar e modificar o mindset durante o processo de formação de um treinador.

Acrescentei este parágrafo porque me parece resumir um dos degraus que falta no comportamento de um treinador, avaliar não apenas os seus conhecimentos mas também as suas competências: «Um treinador é muito mais do que um depósito de conhecimentos técnicos e táticos da modalidade. E de angariar cada vez mais conhecimentos ou a repetição de hábitos, que umas vezes até não são muitos positivos, mas à falta de indicadores de avaliação, lá se mantêm o hábito e a convicção que a experiência nos leva quase sempre a ser peritos nessa ação.»

Sabemos da importância dos comportamentos de um líder nos seus liderados, neste caso, nos atletas. O que falta então para que o treinador comece a avaliar-se nas suas atitudes e comportamentos? Escolheria dois caminhos: ter ferramentas ao seu alcance e estar predisposto para sair da zona de conforto, sabendo que é mais fácil avaliar o ‘fazer’ do que o ‘ser’.

Hoje avançamos para as ferramentas. Como pode um treinador avaliar-se sem ser por ‘achómetros’? O primeiro ponto e talvez o mais importante – mas ficará para o próximo artigo – é querer avaliar-se. E com o quê? Existem dois pontos essenciais: comunicação e ações. Logo é importante ouvirmo-nos e vermo-nos. Para isto, porque não usar um gravador para a voz e uma câmara? Porquê? Os conteúdos das nossas mensagens são deveras importantes. O tom da voz também. Para quem comunicamos e que distinções fazemos entre os feedbacks positivos ou menos positivos também.

Se o fazemos mais para o indivíduo ou para o coletivo também. E se quando o fazemos para o coletivo é mais pelo positivo ou o inverso. O que não falta são áreas e comportamentos para visualizar. E como devemos encontrar os tais indicadores de avaliação para que se fuja claramente aos ‘achómetros’? Essencial e fundamental: saber onde estamos e para onde queremos ir ou avaliar. Ter objetivos quantitativos. E dados também quantitativos e qualitativos.

Recolher por exemplo o tempo que despendemos a fazer o quê. Depois recolher dados do ‘como’. Ou seja, acompanhar os dados quantitativos com aquilo que diferencia os comportamentos, o ‘como’. Um treinador-adjunto ou outro membro da equipa podem perfeitamente contabilizar as ações. Facto importante: quem é avaliado não deve saber concretamente o que está a ser avaliado, deve apenas saber quais os comportamentos no total. E quem avalia, por exemplo, contabiliza um ou dois comportamentos desse conjunto total.

É um mundo para descobrir. Para lá de dinâmicas individuais e coletivas de trabalho, os treinadores vão cada vez mais analisando os seus discursos. Intervenções. É verdade que existem estruturas que têm mais condições para isso do que outras. Mas a principal estrutura é a nossa mente querer evoluir. E isso ainda vai sendo claramente o maior obstáculo.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O erro na formação de formadores

O artigo semanal no MaisFutebol! Aqui vai:

http://www.maisfutebol.iol.pt/opiniao/rui-lanca/o-erro-na-formacao-de-formadores

"Os últimos anos foram passados a contribuir para a formação dos treinadores. Quer em processos de coaching quer no âmbito da formação dos treinadores - até por causa da renovação do título de treinadores -, tenho tido o privilégio de estar regularmente com treinadores com diferentes graus de formação e de distintas modalidades individuais e coletivas.

E se o processo de formação tem sofrido diversas alterações com o intuito de alargar o conjunto de áreas que o treinador deve dominar sem que isso obrigue a ser perito em todas, na minha opinião existe uma área que tem ficado ainda aquém daquilo que devem ser os mínimos para qualquer treinador, seja de grau I ou IV ou de infantis a seniores. É a componente do ser. E do pensar sobre si próprio não apenas enquanto «máquina» que executa ou realiza tarefas.

Um treinador é muito mais do que um depósito de conhecimentos técnicos e táticos da modalidade. E de angariar cada vez mais conhecimentos ou a repetição de hábitos, que umas vezes até não são muitos positivos, mas à falta de indicadores de avaliação, lá se mantém o hábito e a convicção de que a experiência nos leva quase sempre a ser peritos nessa ação.

Um treinador deve conseguir reunir as competências de saber ser, fazer e estar. E não apenas fazer. E é no saber fazer e ser/estar que aparece a capacidade de os treinadores conseguirem agir. Seja numa ação ou na reação. E quando conversamos com os treinadores e tentamos retirar informação sobre o domínio e como é que cada treinador se avalia nas suas ações em termos comportamentais, é que facilmente nos apercebemos de algo: o treinador tem sempre mais dificuldade em se avaliar a si próprio no aspeto comportamental do que na avaliação dos seus conhecimentos sobre a modalidade ou do treino.

O treinador tem na ponta da língua a resposta sobre os seus atletas que são mais motivados, dedicados, líderes, competentes aqui ou ali. E isso significa que existem de modo muito explícito os indicadores de avaliação na mente do treinador para essas competências. O que é necessário trabalhar é perceber a razão por que o treinador tem tanta dificuldade em encontrar indicadores de avaliação para si próprio nas competências comportamentais. No modo como comunica, lidera, motiva, decide, etc.

Este é o campo que deve ser incluído cada vez mais na formação de um treinador. Se os treinadores começam a compreender o impacto e a importância do treino mental no atleta e nas suas equipas, está na altura de o realizarem também para si. Até porque nunca é tarde para reforçar o papel muito importante que o treinador tem no desenvolvimento de competências nos outros. E não falamos apenas de competências técnicas ou do conhecimento da modalidade. Mas sim na motivação, na intervenção, em diversos campos que ajudam o atleta a saber decidir melhor."

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O perfil e o desafio de um gestor desportivo

O desporto enquanto temática é tão apetecível quanto subjetivo. E possivelmente atrairá muitos por ser apetecível e trazer com o tema algum mediatismo e poder, e será essa subjetividade que permitirá todos terem opiniões sobre quase tudo o que está relacionado com o desporto.

Alguém disse que em Portugal a grande maioria da população não gosta de desporto (aliás, a percentagem a rondar os 25 % de população que pratica desporto regularmente é sinal disso). As pessoas gostam do seu clube, depois gostam de ganhar e depois gostam da modalidade em si ou de algumas modalidades. Em parte isto é possível comprovar quando nos apercebemos – social e culturalmente isso também é aceite – que é possível observar constantemente pessoas que preferem ganhar mesmo através da batota do que perder justamente.

E é nesta subjetividade e interesse social que as pessoas trabalham quase todas no sistema e mercado desportivo. Com muita emoção, sentimentos de afinidade com vencedores e vencidos, e com a necessidade de englobar diversas competências comportamentais e de gestão, treino, medicina, nutrição, promoção, eventos, etc. E infelizmente muitas vezes é possível observar que tudo encaixa no mesmo «saco». Aqueles que são dirigentes e gestores desportivos em clubes de bairro, com os gestores de instalações desportivas públicas até aos dirigentes e gestores desportivos que estão inseridos em estruturas como empresas, federações e clubes de enormes proporções.

As realidades e necessidades são distintas. E com isto, provavelmente, exigirão desempenhos e respostas diferentes. Mas a base de alguém que trabalha na gestão desportiva deverá (deveria, face à escassez que se observa) ser um equilíbrio entre aquilo que são os valores associados à prática desportiva, as vocações e visões dos locais onde se trabalha mas também a necessidade imperial de «levar» para o desporto as preocupações de potenciar, maximizar e gerir os recursos à volta de cada realidade desportiva. Que pelo conhecimento que vamos obtendo são quase sempre parcos.

Não é difícil perceber que a taxa de penetração de pessoas no mercado com intuitos e competências de gestão e desporto é inferior comparativamente com aquilo que os clubes, federações ou empresas precisam. E talvez o maior desafio ou adversário é perceber que estas estruturas consideram que não precisam.

E é possivelmente por isso que contactando com treinadores, pais, atletas, professores, utentes, clientes e parceiros, percebemos que o desporto é demasiado valioso para ser entregue a quem não percebe que o desporto é para ser vivido, usufruído e valorizado. E não ser – talvez pelo mediatismo que proporciona – ser utilizado para usufruto próprio. E infelizmente, esta realidade é bem pior quando os recursos financeiros são disponibilizados pela população.